O que se descobriu
Isabel Mist*
Heloísa permaneceu calada desde o momento em que Lina e ela foram encontradas, por quem ela, agora, sabia chamar-se Pedro Minos. Acompanhava conversa sem entender muito do que se tratava. Estava ouvindo Dédalo ser acusado e Lina discutir com aquele homem sobre documentos antigos e novos, e ninguém mencionava Lisandro ou os planos do Dragão. Estava confusa. E ficou surpresa quando Dédalo entrou na sala sem pedir licença. Mas resolveu falar.
“Ninguém aqui está preocupado com Lisandro? Ele será a próxima vítima do Dragão. Ele precisa de ajuda.’’
Todos olharam para menina, mas não falaram com ela. Dédalo e Minos continuaram discutindo.
“Isto é uma demonstração de como as informações que você manipula podem interferir na vida das pessoas.”
“As crianças são muito imaginativas, Dédalo, isso é normal. Elas sempre podem se impressionar com histórias que ouvem. Não posso ser responsabilizado criminalmente por isso.”
“Mas pode responder criminalmente por desvio de verbas públicas para financiamento de seus negócios…”
“Ora, novamente este assunto. Que provas você tem disso? Eu não tenho nenhuma empresa. Não sei de onde você tirou essas ideias.”
“Minos, você deveria ser mais cuidadoso com os lugares que escolhe para guardar documentos particulares. Encontrei, na biblioteca, todos os documentos da empresa de sua família, e não somente os atuais – e estes o comprometem. Encontrei coisas que remetem à fundação desta cidade, supostamente por sua família. Sei que seus antepassados vieram para esta região e que fundaram uma empresa que os tornou muito poderosos…”
Pedro Minos agora tinha uma expressão preocupada. Precisava descobrir o quanto Dédalo sabia sobre suas atividades ilegais.
“Continue, Dédalo. Estou interessado nos seus delírios e no que pensa que descobriu.”
“Você sabe muito bem que estou falando a verdade e que não poderá fugir. Eu só gostaria de entender por que você resolveu deixar no seu atual local de trabalho os papeis que o denunciam, e nas mãos dos seus atuais funcionários, quer dizer, não os funcionários da biblioteca, mas os que trabalham em sua empresa. E, claro, por que acha que tem o direito de reescrever a história da cidade e de modificar as lendas, como disse à Lina.”
Minos estava cada vez mais irritado e percebia que Dédalo estava a par de tudo o que ele vinha fazendo na cidade. Apertou um botão localizado debaixo de sua Perdeu o controle e gritou com Dédalo:
“Sou eu quem decide o que é seguro, o que interessa que as pessoas saibam. E também decido quem são as pessoas que podem compartilhar do que sei. Meu cargo como diretor desta biblioteca me permite tomar essas decisões. E agora chega. Saia daqui e leve estas meninas com você.”
Neste momento, seguranças chegaram para acompanhar Dédalo, Lina e Heloísa até a saída. Entraram todos no elevador, e saíram da biblioteca em silêncio.
Dédalo levou as meninas para almoçar em sua casa. Depois descansaram durante a tarde. Noite. Lua cheia.
Amanhecer. Raios de sol dissipam a neblina. A Cidade Colorida começa a despertar. Como todas as manhãs, agitados pássaros tomavam uma imensa árvore que fica no quintal de Dédalo.
Dédalo e Lina conversavam sobre o dia anterior na cozinha. Heloísa ainda não acordara.
“Ainda não entendi por que Minos saiu pela cidade disfarçado de personagem de uma lenda que ele mesmo, juntamente com seus familiares, modificaram. O que ele ganharia distorcendo uma lenda? E por que você, Dédalo, não me contou antes o que já sabia? Há mais pessoas acreditando que Minos é Dragão?”
“Não posso responder a todas as suas perguntas, ainda, Lina. Preciso voltar à biblioteca e reunir mais provas contra Minos com relação aos desvios de verbas destinadas à biblioteca para a empresa dele.”
“Voltar à biblioteca? Não sei se será útil. Imagino que Minos reforçou a segurança depois de nosso ‘encontro’ ontem.”
“Ele reforçou as entradas que conhece, com certeza. O que ele não sabe é que participei da elaboração arquitetônica da biblioteca, e que existem mais entradas e saídas lá do que as que ele vê.”
“Eu não sabia que você é arquiteto… As entradas e saídas ocultas teem a ver com a sala preta e branca?”
“Sim. A entrada que pretendo usar leva exatamente àquela sala.”
“Quero ir com você. Posso?”
“Sim, você deve ir. Ainda precisa entender algumas outras coisas. Heloísa também.”
*Isabel Mist, sonhando…
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