17:01 - quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Novas mídias, velho jornalismo

Por Lilia Diniz

Ele tem quatro séculos de história. Elegeu e derrubou presidentes em todo o mundo, foi uma importante arma de guerra e fez a cabeça muitas gerações. Conviveu com a instantaneidade do rádio e resistiu à concorrência da televisão. Até meados dos anos 1980 o poder do jornal impresso era indiscutível. Mas as novas tecnologias da informação mudaram radicalmente o panorama. A internet, com sua infinidade de sites, blogs, comunidades de relacionamento e sistemas de transmissão de micromensagens como o Twitter, transformou o leitor em produtor de informação. E levou as empresas de comunicação a repensar o papel do jornal impresso na sociedade. O Observatório da Imprensa exibido no dia 7 de setembro de 2009 pela TV Brasil discutiu o a convivência entre o velho e novo jornalismo.

Fatos recentes como a cobertura das eleições presidenciais no Irã e a morte do cantor Michael Jackson são exemplos do poder da transmissão da informação através das novas mídias. Impedida de cobrir as manifestações em Teerã, a imprensa rapidamente publicou milhares de notícias e vídeos enviados pela população. A cobertura da morte de Michael Jackson também foi feita em tempo real. Poucos minutos depois de o cantor chegar ao hospital, sites de todo o mundo reproduziam as notícias que o portal TMZ, dedicado a celebridades, publicava em primeira mão.

No cinema, o filme Intrigas de Estado, de Kevin MacDonald, mostra a inicial disputa e a posterior colaboração entre uma blogueira inexperiente e um repórter maduro na cobertura de um crime envolvendo um político para uma empresa jornalística. O longa-metragem explora o embate entre as duas formas de jornalismo e trata de questões éticas da profissão em um momento de transformação da imprensa escrita.

Revolução informativa

Antes do debate ao vivo, na coluna “A Mídia na Semana”, o jornalista Alberto Dines comentou fatos de destaque dos últimos dias. A relação da mídia com o cantor Michael Jackson foi o primeiro assunto da seção. Em outro tópico, criticou o fato de o jornal Folha de S.Paulo manter entre seus colunistas o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Dines comentou que o jornal não conseguiu “desvencilhar-se do ilustre colaborador” quando o político foi eleito para presidir o Senado [ver abaixo a íntegra das notas].

editorial do Observatório da Imprensa na TV nº 510, exibido em 7/7/2009

  • Todos concordam: está em curso uma formidável revolução informativa. A internet e as novas tecnologias mudaram drasticamente os hábitos e a maneira de consumir notícias. Mas ninguém consegue responder a esta perguntinha incômoda: as pessoas estão mais e melhor informadas?
  • Aparentemente nada mudou. A simples menção de um fenômeno não confirma a sua existência. Por enquanto, a revolução da informação resume-se a uma expectativa. O usuário do Twitter não é necessariamente um cidadão bem informado, é uma testemunha passiva, mais ou menos consciente do que assiste.
  • O jornalismo-cidadão ou jornalismo-participativo mostrou o seu potencial nas ruas de Teerã durante os protestos contra a reeleição de Ahmadinejad. Mas a crise no Irã foi logo soterrada pela morte de Michael Jackson que, por sua vez, soterrou o golpe em Honduras, logo atropelado pelas 150 mortes nas manifestações ocorridas na província chinesa de Urumqui. Aumenta o número de blogueiros e de twiteiros mas não aumenta o número dos bem informados. Este é um dos saldos da revolução informativa que bem resume-se a uma coletânea de factóides.
  • O filme Intrigas de Estado, recentemente estreado no Brasil, reflete a competição entre um repórter investigativo da mídia impressa e uma jovem blogueira da mesma empresa, ambos cobrindo o mesmo assunto. O momento mais verdadeiro do filme talvez seja protagonizado pela diretora de Redação ao berrar que nenhum dos dois tem razão, o melhor da história é o afundamento daquela empresa.

No editorial sobre as novas tecnologias, Dines disse que uma “formidável” revolução informativa teve início. “A internet e as novas tecnologias mudaram drasticamente os hábitos e a maneira de consumir notícias. Mas ninguém consegue responder a esta perguntinha incômoda: as pessoas estão mais e melhor informadas?”, questionou. Comentou que o jornalismo-cidadão “mostrou seu potencial” durante os protestos que se seguiram às eleições presidenciais no Irã. “Aumenta o número de blogueiros e de twiteiros, mas não aumenta o número dos bem informados. Este é um dos saldos da revolução informativa que bem resume-se a uma coletânea de factóides.” [ver íntegra abaixo].

  • O show precisa continuar. A vida e a morte de Michael Jackson fazem parte do mesmo espetáculo e do mesmo negócio. O seu velório em Los Angeles foi mais um capítulo de uma novela concebida para ficar eternamente em cartaz. Jackson foi ao mesmo tempo negro, branco, homem, mulher, andrógino, criança e adulto. O cantor-dançarino inventou um novo tipo de fama e uma nova forma de celebrar-se – através da imolação. A multidão adora este vale-tudo que converte os anônimos em testemunhas de uma história cuja relevância é duvidosa.
  • O presidente do Senado, José Sarney está passando pelo pior momento da sua carreira política e quem parece acompanhá-lo na desgraça é a Folha de S.Paulo, que não soube desvencilhar-se do ilustre colaborador em fevereiro, quando foi eleito. A sucessão de manchetes contra Sarney foi finalmente interrompida quando apareceu uma velha história sobre o mensalão. Nem o Estadão, nem O Globo deram muita importância ao caso, mas para a Folha foi um alivio voltar à batida Operação Satiagraha e aos batidíssimos Daniel Dantas e Marcos Valério.

O leitor como colaborador

O debate ao vivo contou com a presença de três jornalistas. No Rio de Janeiro, o convidado foi Arnaldo César. Jornalista desde os 16 anos, passou pelo Correio da Manhã, Jornal do Brasil, O Globo, pelas revistas Veja e Exame, TV Globo e Rádio Jornal do Brasil. Tem vasta experiência em jornalismo popular. Foi editor-executivo do jornal carioca O Dia por oito anos. Atualmente, preside a ACERP, empresa subsidiária da TV Brasil. Paulo Cabral e Maurício Stycer participaram pelo estúdio de São Paulo. Paulo Cabral é repórter especial da BBC na América do Sul. Repórter de Economia, trabalhou no Estado de S.Paulo e na Folha de S.Paulo. É especialista em jornalismo internacional. Na BBC, foi repórter e produtor em Londres e correspondente, no Cairo. Maurício Stycer é repórter especial do iG, onde mantém um blog. Trabalhou no Jornal do Brasil, Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo, Lance!, Época e CartaCapital. É mestre e doutorando pelo Programa de Sociologia da USP.

A reportagem exibida no programa entrevistou a editora-executiva do site de Globo, Sonia Soares. A jornalista avalia que a mídia impressa tem uma preocupação adicional com a explosão das novas formas de comunicação: ir além da informação que já foi dada. Os jornais sempre concorreram com a TV e o rádio, mas a internet intensificou este fenômeno. Há cerca de dois anos, O Globo criou a seção interativa “Eu Repórter”. Por meio dela, leitores enviam vídeos e textos espontaneamente. Quando os editores do jornal avaliam que a colaboração dos leitores é imprescindível, estimulam a participação – como na cobertura de grandes enchentes. Sonia revelou que o jornal chegou a ser criticado pela iniciativa.

O editor de “Empresas” da agência Reuters em língua portuguesa, Cesar Bianconi, comentou que o “testemunho ocular” não é uma novidade na imprensa, já foi usado em coberturas como a Guerra do Golfo. Com os novos recursos, multiplicou-se “de maneira absurda”. Para Bianconi, a grande dificuldade da imprensa é fazer a triagem do conteúdo produzido e divulgado pelas novas mídias.

Por internet, o jornalista Caio Blinder , que vive em Nova York, comentou a convivência entre o jornalismo tradicional e as novas tecnologias de informação. Para Blinder, a relação é de aprendizado, necessidade, ansiedade e até de desespero. A face mais visível do processo são as revistas semanais, que estão em busca de uma nova identidade. Seus sites estão repletos de blogs e twitters. Blinder contou que recentemente, em uma conferência, o editor-chefe do New York Times enfatizou a ansiedade de o “velho jornalismo” incorporar com muita rapidez as novas tecnologias e orgulhou-se de um blog do jornal que “aspira” notícias de diversas fontes e posta vídeos transmitidos por não-profissionais do jornalismo. A iniciativa era “vital, urgente e emocionante nos dias mais dramáticos da crise iraniana”.

Blinder afirmou que, na morte, Michael Jackson, o rei do pop, “botou a imprensa tradicional para dançar”. A mídia escrita investiu na cobertura com o mesmo “despudor” da mídia menos pretensiosa. Novas barreiras foram rompidas no frenesi. “De repente, a crise do Irã morreu na CNN, sem bala para duelar contra Michael Jackson.” Blinder comentou ainda que ao “abraçar com sofreguidão” a cultura popular, a imprensa tradicional mostra alguns fatos: ela não é “tão elitista assim”, e se conecta com o público jovem, que é indiferente ao noticiário “convencional e chato” e usa “com muito gosto” a internet. “Michael Jackson está morto e a imprensa quer sobrevier a todo custo”, avaliou.

Convivência inevitável

Também por internet, o jornalista Carlos Castilho disse que o novo e o velho jornalismo estão condenados a conviver porque a internet criou uma nova realidade informativa “mas não mudou a maioria dos valores sociais vigentes”. Mas a convivência nem sempre é tranqüila, pois vive-se a transição de um modelo de cobertura jornalística. “Toda transição é uma luta de rupturas e mudanças que nem sempre são bem digeridas pelos tradicionalistas. Da mesma forma, os seguidores das novas tecnologias tendem a transformá-las em mitos, o que cria generalizações tão equivocadas quanto a resistência ao novo”, afirmou.

Um dos sintomas mais impactantes dessa mudança de paradigmas informativos aconteceu recentemente no Irã e também na morte do cantor Michael Jackson. “Ficou claro que em grandes eventos noticiosos o público tende a ser mais rápido que a imprensa. Para uns, é um retrocesso informativo, para outros é um sintoma de que os jornalistas perderam o controle da notícia. A boataria vai comer solta até que a imprensa possa confirmar as informações”, disse Castilho. Ele considera que está surgindo um novo paradigma informativo, no qual o jornalista perdeu o monopólio do “furo noticioso”. Por outro lado, o profissional de imprensa está ganhando uma responsabilidade ainda maior: a da checagem das informações.

No debate ao vivo, Dines afirmou que as reportagens que Maurício Stycer publica no iG pertencem ao “bom e velho” jornalismo tradicional. Ouvem os dois lados da questão, respeitam o sigilo da fonte, têm extensa pesquisa. Dines perguntou se a grande revolução em curso consiste em publicar a boa matéria tradicional em novas mídias. Stycer explicou que em parte sim, mas o fenômeno é maior. Aos 48 anos, 25 deles vividos em redações de mídia impressa e menos de um ano na internet, Stycer argumentou que ainda está “conhecendo as novas mídias”.

Velocidade e interatividade

Uma das características mais marcantes do jornalismo online é a possibilidade de reescrever a matéria logo após a veiculação. A velocidade com que o texto é recebido provoca mudanças permanentemente. “Minutos ou segundos depois de publicar um texto, você é avisado de falhas e erros que cometeu. Isto permite que possa revisar e corrigir”, explicou. Outra particularidade é a interatividade, que afeta o tipo de texto produzido. “Além de todos os requisitos do jornalismo impresso que são reproduzidos na mídia online, a internet produz novas possibilidades de fazer jornalismo”, disse Stycer.

Arnaldo César comentou que a “parafernália tecnológica” levou os veículos tradicionais a começarem a se preocupar com a qualidade da informação. “É ela que vai garantir a sobrevivência dos jornais e dos impressos”, assegurou. Há cerca de um ano e meio, a revista americana Newsweek alterou significativamente seu modelo de negócios e avisou aos leitores que se dedicaria inteiramente à qualificação da informação. A inspiração é a revista britânica The Economist. Arnaldo César avalia que a “revolução” será benéfica para os jornalistas. “Nós não podemos pensar em fazer jornalismo como fazíamos há 5 ou 6 anos”, afirmou. O jornalista concorda com Carlos Castilho de que a instantaneidade da informação não deve ser buscada pela mídia impressa. O desafio é fazer um bom jornalismo. “A qualificação da informação vai ser a grande disputa entre os veículos tradicionais e os novos”, disse.

Paulo Cabral considera que há espaço para as duas formas de jornalismo. “A internet é uma nova ferramenta que será tão valiosa quanto a competência de quem estiver usando esta ferramenta”, avaliou. A partir do uso maciço das novas mídias, o argumento de que a imprensa é dominada por poucos grupos não é mais válida. “Você pode buscar mídias alternativas, até o release que os jornalistas recebem.”. A dificuldade não está mais na falta de informação, mas na falta de edição. “Ninguém mais sabe onde encontrar informação confiável”, disse. Em sua opinião, é preciso que o usuário saiba discernir que fontes têm mais credibilidade. A pressa em abastecer em tempo real um veículo de comunicação aumenta o potencial de erro, segundo ele.

Há espaço para todos os modelos?

Cabral observa que há espaço para o desenvolvimento de uma nova linguagem na comunicação. Existe espaço para a publicação de informações fragmentadas. Textos pequenos e instantâneos podem atender às demandas de um determinado público, que não se interessa naquele momento por notícias mais extensas. O jornalista acredita que o veículo pode e deve publicar uma matéria curta se a informação já estiver confirmada mesmo antes de a matéria ser finalizada. “As pessoas não querem mais esperar o momento que a imprensa quer que elas recebam aquela informação”, disse.

Em torno de 80% das informações publicadas por jornais impressos já foram veiculadas pela TV, pelo rádio ou pela internet. “A concorrência entre os sites é enlouquecedora. Eles brigam pela notícia o tempo todo”, disse Arnaldo César. A proliferação da informação na rede levará a população a “ficar na dúvida” e, neste contexto, passa a ser imprescindível alguém que “organize o material”. Quem? O jornalista. “Cada vez mais os jornais vão deixar de se preocupar com a instantaneidade da informação. Já é uma batalha perdida”, sublinhou. O foco dos jornais será a reflexão, a busca por outras informações que não foram publicadas pelos veículos eletrônicos. “Essa preocupação vai melhorar a qualidade da informação disponibilizada para os leitores”, disse.

Lilia Diniz é jornalista.

Matéria publicada originalmente pelo site Observatório da Imprensa em 08/07/2009.

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